Erámos um casal, ela era uma
atriz
Concordamos em compartilhar
nossas miseráveis existências.
trabalhos, viagens, amigos em
comum
Era realmente expressivo gastar
tempo um com o outro
e ela era ela e eu era eu
mas para as outras pessoas erámos
siameses
a cópia da cópia de dentro para
fora
éramos confiáveis, mas não dava para
ignorar que algo tão bom não fosse um erro.
nos tornamos fantasmas um do
outro, eventualmente.
não existia ela sem mim, não
existia eu sem ela.
Erámos vazios, ocos e nada nos
saciava.
Dois de mim, dois dela.
O tempo era um milagre visto
apenas pelo outro lado
O tempo nos dividia
Eu não estava preparado para
aquele milagre
cada rosto era o dela e eu não me
via mais no espelho
nada é igual. nada existe. nada é
simétrico.
De quem é esse rosto no espelho?
O lápis do poeta, dá forma ao
metafisico, uma arma às avessas
Acerto meus olhos sem pestanejar,
o mundo rubro desvanece
Para viver com alguém devemos
permanecer de olhos bem fechados
e que não haja amores até onde a
vista alcança.