quinta-feira, 1 de julho de 2021

Duplo #1206

Erámos um casal, ela era uma atriz

Concordamos em compartilhar nossas miseráveis existências.

trabalhos, viagens, amigos em comum

Era realmente expressivo gastar tempo um com o outro

 

e ela era ela e eu era eu

mas para as outras pessoas erámos siameses

a cópia da cópia de dentro para fora

éramos confiáveis, mas não dava para ignorar que algo tão bom não fosse um erro.

nos tornamos fantasmas um do outro, eventualmente.

 

não existia ela sem mim, não existia eu sem ela.

Erámos vazios, ocos e nada nos saciava.

Dois de mim, dois dela.

O tempo era um milagre visto apenas pelo outro lado

O tempo nos dividia

 

Eu não estava preparado para aquele milagre

cada rosto era o dela e eu não me via mais no espelho

nada é igual. nada existe. nada é simétrico.

De quem é esse rosto no espelho?

 

O lápis do poeta, dá forma ao metafisico, uma arma às avessas 

Acerto meus olhos sem pestanejar, o mundo rubro desvanece

Para viver com alguém devemos permanecer de olhos bem fechados

e que não haja amores até onde a vista alcança.


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